Anadimplência
alta faz varejo apertar crédito
O
varejo está mudando sua política de crédito
para combater o crescimento de mais de 13% da inadimplência
neste ano, que foi puxado pela explosão do crédito
consignado em folha de pagamento no período. A estratégia
das grandes redes — como Lojas Colombo , Ponto Frio e Extra
Hipermercados — é incentivar pagamentos no cartão
de crédito, em que o recebimento é garantido e a cobrança
da administradora é de 0,5%, um índice atrativo levando-se
em conta o alto impacto do calote. Só na Casas Bahia , o
total de inadimplentes cresceu 10% neste ano sobre 2004. Outras
estratégias adotadas pelos lojistas são fomentar as
vendas à vista e buscar parceria com instituições
financeiras, o que tem sido uma constante no setor.
Na venda por carnê, redes como Casas Bahia e Kolumbus cobram
juros mensais superiores a 5,2% em planos acima de doze meses —
o ganho do varejista é maior, mas o risco da inadimplência
também cresce.
“Os lojistas buscam aumentar as opções de venda
e reduzir a inadimplência. No cartão de crédito
o lojista deixa o risco para a administradora. É uma forma
de reduzir o impacto da inadimplência. Para pequenos lojistas,
que não podem financiar as vendas, o cartão também
mostra ser uma opção vantajosa”, diz Miguel
de Oliveira, da Associação Nacional dos Executivos
de Finanças, Administração e Contabilidade
(Anefac).
A cobrança das administradoras de cartões de crédito
varia de acordo com o volume de vendas das lojas, podendo chegar
a 5%. Quanto maior a venda, menor a cobrança.
De acordo com analistas e representantes do varejo, o quadro da
inadimplência tem relação com o expressivo crescimento
do crédito, principalmente do crédito consignado,
em que a cobrança é realizada diretamente na folha
de pagamento dos consumidores. De outubro de 2004 para o mesmo mês
deste ano, o saldo da modalidade de empréstimo subiu de R$
16,1 bilhões para R$ 31 bilhões.
Com a cobrança automática, sobra menos dinheiro ao
consumidor honrar seus compromissos com o varejo.
“O sistema bancário conseguiu reduzir a sua inadimplência
com o crédito consignado, e deixou de presente para o varejo
toda a inadimplência que antes era dividida entre os dois”,
avalia Sílvio Sibemberg, diretor presidente da rede de lojas
Gang , que comercializa vestuário no Rio Grande do Sul e
Santa Catarina. Ele conta que a inadimplência na rede está
atualmente em uma média de 2,5%, cerca de 20% superior ao
mesmo período de 2004.
Para minimizar o impacto da inadimplência, a Lojas Colombo
terceira maior de móveis e eletros do País, passou
a ser mais criteriosa na concessão de crédito. Além
disso, informa o diretor de vendas da empresa, Arnildo Heimerdinger,
a Colombo incentiva o uso do cartão de crédito no
lugar dos cheques, oferecendo parcelamento de até dez vezes.
A rede também facilitou o pagamento dos consumidores em dificuldades.
“Para o Natal, a Colombo está alongando ainda mais
o número de parcelas, com possibilidade de pagamento em até
vinte vezes para linhas de produtos selecionados”, diz Heimerdinger.
Uma das três maiores redes varejistas de eletros de Santa
Catarina, a Lojas Berlanda reciclou a equipe que concede crédito,
conforme informa o correspondente Henrique Puccini.
“O empréstimo será baseado em até 30%
do salário do cliente”, explica o diretor comercial
Gilmar Godoy. A concessão de crédito ainda poderá
ter a parceria uma financeira, mas o executivo prefere não
revelar o nome até que a negociação seja confirmada.
Essa aproximação que tem ocorrido entre varejistas
e bancos minimizou o impacto da inadimplência em grandes redes.
No Grupo Pão de Açúcar os riscos do crediário
são divididos com o Itaú. Nos hipermercados do Wal-Mart
a inadimplência atinge o Unibanco , que dá o crédito
ao consumidor final.
Ainda sem um parceiro financeiro, a Berlanda está com índice
de inadimplência de 4,73% , um número que cresceu 17%
em relação a 2004. A estratégia usada pela
companhia para reduzir esse percentual é de concentrar o
volume de vendas em prazos intermediários. Godoy afirma que
a maior parcela do endividamento e calote está em planos
muito longos. A oferta de planos de 24 vezes sem entrada ou até
mesmo como o da concorrente Salfer , com prazos de 60 dias para
o primeiro pagamento, não faz parte da estratégia
do Grupo. “Temos foco em planos com entrada e prazos médios
de pagamento”, afirma Godoy.
A Salfer , outra rede catarinense de eletros, sentiu um aumento
do calote. “Nosso percentual de inadimplência cresceu
de 3,5% para 5%”, diz o diretor corporativo e da qualidade
do grupo, Valdemiro Hafemann.
Algumas lojas endurecem a negociação com os clientes.
“Antes, os gerentes podiam abrir concessões, aumentar
os parcelamentos oferecidos, negociar mais com o cliente. Agora
estamos insistindo nos cumprimentos de normas internas mais rígidas,
para tentar minimizar o número de cheques devolvidos”,
diz Alcides Debus, proprietário da Rabush , rede com nove
lojas no Rio Grande do Sul.
Em Salvador, algumas redes varejistas contrataram financeiras para
administrar o crédito e controlar a inadimplência,
segundo apurou a correspondente Ana Cristina Santiago.
“Trabalhar com as financeiras é mais custoso, mas,
por outro lado, não sofro com a inadimplência e nem
preciso me preocupar em administrar e investir numa estrutura administrativa
para a concessão de crédito”, diz Ildo Fucs,
dono da Tapeçaria Globo , rede especializada em material
de construção e decoração. Os empresários
pagam uma média de 3,5% a 4% ao mês de juros à
financeiras para receber os cheques em suas lojas. Nos pagamentos
a carnês, as taxas giram ao redor de 5% a 6%. O proprietário
da rede Romelsa , Edmundo Garcia, adotou a estratégia. Segundo
ele, antes a empresa usava financeira para 60% das negociações
com cheques e carnês próprios, e o restante era feito
pela casa. “Vi que não valia a pena trabalhar assim
porque a inadimplência era muito alta. De um tempo para cá,
resolvi adotar o serviços das financeiras para 100% das minhas
vendas com estes tipos de pagamento”, diz Garcia, que possui
12 lojas no mercado soteropolitano.
Fonte: jornal DCI - edição de 05/12/2005 - Eduardo Laguna, Cristiano
Eloi e Martiane Welter