Crédito
pode superar previsões
As
operações de crédito devem crescer neste ano
mais do que em 2004, superando a expectativa dos próprios
bancos. A previsão é da agência internacional
de avaliação de risco Fitch Ratings. "Ao final
do primeiro semestre, o crédito já havia crescido
20% sobre junho de 2004 e tudo indica que o ritmo está sendo
mantido. No segundo semestre, a demanda por crédito é
sazonalmente até maior. E deve continuar crescendo em 2006",
afirmou a diretora sênior da Fitch, Maria Rita Gonçalves.
No ano passado, o crédito cresceu 17,9% para R$ 485,9 bilhões,
segundo o Banco Central (BC). Neste ano, até agosto, dado
mais recente disponível, a expansão foi de 11,6%.
No entanto, com base nos balanços dos bancos, a Fitch calculou
em 18,2% o crescimento do crédito nos bancos no período
de um ano terminado em junho. Nos dez maiores bancos de varejo,
a variação cravou os 20%.
A carteira de pessoas físicas puxa a tendência. Nos
dados consolidados do BC, o crédito para a pessoa física
já cresceu 27,9% nos primeiros oito meses deste ano, praticamente
o mesmo que em todo o ano passado (27%).
Nos balanços analisados pela Fitch, novamente os dados são
mais expressivos: no consolidado do sistema financeiro, o crédito
para pessoas físicas cresceu 41,8% nos doze meses terminados
em junho; e, nos dez maiores do varejo, 38,6%.
"A economia está crescendo mais do que se esperava",
justificou o diretor da Fitch, Pedro Gomes. Além disso, acrescentou
Maria Rita, o crédito está sendo impulsionado pelos
acordos dos bancos com as empresas de varejo e cessões de
crédito e pelo aumento da bancarização.
A tendência deverá ser mantida nos balanços
do terceiro trimestre, que começam a ser divulgados. O analista
da Merrill Lynch, Paul Tucker, afirmou em relatório ontem
divulgado esperar resultados fortes no terceiro trimestre em consequência
da expansão do financiamento ao consumo. Ele prevê
uma expansão do crédito entre 5% e 7% no terceiro
trimestre sobre o trimestre anterior.
O balanço do Banespa, ontem divulgado, confirma as previsões
de Tucker. A carteira de crédito do banco atingiu R$ 10,547
bilhões no final de setembro, 27,5% maior do que no mesmo
mês de 2004 e 6,3% acima de junho. Somente as operações
com pessoas físicas, incluindo financiamento de veículos,
cartão de crédito e crédito pessoal, tiveram
um aumento de 28,6% em doze meses e de 12% sobre junho.
No levantamento da Fitch, a expansão do crédito sustenta
uma rentabilidade média anualizada sobre o patrimônio
líquido de 23,4% ao final do primeiro semestre, acima dos
22% de dezembro e dos 20,2% de um ano antes.
Nessa faixa média está o Unibanco, segundo Tucker.
O analista espera que o banco tenha um lucro líquido de R$
463 milhões no terceiro trimestre, com retorno de 21%. O
banco deve divulgar o balanço no dia 10 de novembro, data
não confirmada pela assessoria de imprensa.
Já o Bradesco, na previsão da Merrill Lynch, deve
lucrar R$ 1,497 bilhão no terceiro trimestre, garantindo
retorno anualizado de 33%. O resultado sai dia 7. Antes dele, no
dia 1º, o Itaú deve divulgar resultado, com lucro previsto
em R$ 1,3 bilhão e retorno de 33%. O consenso mercado, reconhece
Tucker, está um pouco acima. Já o Banco do Brasil
anuncia o balanço no dia 14.
Para o analista da Merrill Lynch, só as despesas com o reajuste
da folha de salários pode reduzir os números do terceiro
trimestre.
A médio prazo, Maria Rita se preocupa com o que considera
provisionamento insuficiente dos bancos pequenos e médios
que cedem carteiras de crédito aos grandes. A legislação
permite aos bancos que fazem cessão com coobrigação,
isto é, dividendo o risco com o comprador, que provisionem
apenas 50% da operação. A diretora sênior da
Fitch considera isso insuficiente. Os balanços do primeiro
semestre mostraram que a cessão de crédito tirou do
balanço cerca de 20% das operações de crédito
originadas pelos bancos pequenos e médios.
Um desafio pela frente dos bancos, acrescentou, é explorar
a base de clientes à qual tiveram acesso por meio dos acordos
com redes de varejo, expandindo as vendas cruzadas.
A esperada queda dos juros, disse, não deve afetar a receita
com crédito, porque os spreads ainda são muito elevados.
Mas, terá impacto na redução do retorno das
carteiras de títulos e valores mobiliários.
Tucker afirmou que a redução dos juros é positiva
para os bancos, embora espere uma redução de margens
a partir do próximo ano. Acredita, porém, que os bancos
vão compensar isso com uma maior oferta de financiamento
ao consumo, cujas taxas são mais elevadas, volumes maiores
e menor inadimplência.
A Fitch notou que o crescimento do crédito não prejudicou
a qualidade das carteiras: as operações classificadas
de D a H representavam 7,3% do total em junho, menos do que os 8%
de igual mês de 2004.
Fonte: jornal Valor Econômico - edição de 26/10/2005 -
Maria Christina Carvalho