Roubo
pela Internet cresce 688%
E-mails
com mensagens intrigantes, como "você está sendo
traído", "de seu grande amor", "seu CPF
foi cancelado" ou "seu nome está na lista da Serasa",
atiçam a curiosidade do internauta, mas podem ser o início
de uma grande dor de cabeça. Ao abrir esses arquivos, bandidos
cibernéticos passam a acompanhar permanentemente suas ações
na rede para captar dados pessoais, principalmente de contas e senhas
de banco. Com essas informações em mãos, fazem
transferências de dinheiro, pagamento de despesas e compras.
Tudo por meio da conta bancária da vítima, que nem
sabe que está sendo roubada.
Esse é apenas um dos mecanismos, chamados de trojans ou cavalos-de-tróia,
que têm crescido numa velocidade surpreendente. De janeiro
a setembro deste ano, o volume acumulado de fraudes pela internet
saltou 688% comparado a igual período de 2004, disparando
de 2.340 para 18.443 incidentes. Só no último trimestre
deste ano foram registrados cerca de 8.288 casos, segundo o Centro
de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes de Segurança
no Brasil, do Comitê Gestor da Internet.
A proliferação desses crimes, associada à clonagem
dos cartões bancários, tem se tornado um pesadelo
para o sistema financeiro, que tenta vencer a criatividade dos hackers
do mal (ou crackers, como são conhecidos na comunidade virtual).
"Trata-se de um grupo de inteligência. Eles desenvolvem
mecanismos e equipamentos sofisticados para roubar o dinheiro dos
clientes. Não é qualquer um que faz isso", afirma
o diretor setorial de cartões e negócios eletrônicos
da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), Jair
Delgado Scalco.
Além da internet, ele cita, por exemplo, a modalidade de
fraude em cartões, vulgarmente conhecida como chupa-cabra,
que copia os dados gravados na tarja magnética. Por ser uma
operação muito visada pela polícia e pelos
bancos, as quadrilhas tiveram de aperfeiçoar suas técnicas.
Agora eles usam chips e microcâmeras para captar os dados
do cartão do cliente e roubar o dinheiro depositado na conta.
Isso tudo sem ter de ficar vigiando o correntista.
Mas muitos devem se perguntar como esses bandidos conseguem instalar
equipamentos nos caixas eletrônicos sem que ninguém
veja. O problema é que as quadrilhas também envolvem
técnicos responsáveis pela manutenção
da máquina. Em alguns casos são eles que fazem a instalação
dos aparelhos que captam as senhas, explica o executivo da Febraban.
Segundo ele, no entanto, os bancos estão investindo pesado
para dificultar a vida dos bandidos. A expectativa é que
as instituições apliquem cerca de US$ 1 bilhão
no sistema para melhorar a segurança dos clientes, sejam
usuários de cartões ou Internet Banking. Entre as
novas tecnologias estão o token (uma chave com senha extra
que muda a cada minuto e pode ser usada nos computadores por meio
da entrada USB ou nos caixas eletrônicos), o smart card (um
cartão inteligente com chip) e cartões de senhas (senhas
extras que devem ser digitadas conforme o pedido do banco).
De acordo com Scalco, estima-se que o prejuízo com fraudes
some neste ano cerca de R$ 300 milhões. Um número
contestado por alguns especialistas no assunto, que acreditam que
o rombo é bem maior. Mas, independentemente de valores, a
questão é que essas operações causam
muita dor de cabeça aos clientes, que são surpreendidos
por altos saques e transferências. O dinheiro normalmente
é devolvido, mas apenas depois de uma investigação.
"Temos de tomar cuidado, senão viramos uma fábrica
de doação", argumenta o diretor da Febraban,
referindo-se à autofraude, em que o cliente mente que sumiu
dinheiro da conta, mas foi ele mesmo quem sacou.
Em épocas de cavalo-de-tróia (e-mails falsos para
capturar senhas) e pharming (modificações nos endereços
que levam o internauta para uma página que não corresponde
ao endereço digitado), todo cuidado é pouco. Especialmente
porque, em recente pesquisa feita pela Trend Micro (empresa de produtos
e serviços de antivírus e segurança de rede),
o Brasil aparece como campeão na criação de
trojans de bancos, cujo objetivo é roubar informações
dos correntistas, à frente de Estados Unidos e Espanha.
Segundo dados da empresa, a quantidade de arquivos criados no Brasil
com a finalidade de fraude é, pelo menos, 30% maior que nos
Estados Unidos. "Hoje são criados entre 1 e 2 novos
códigos por dia no Brasil", afirma o gerente de suporte
técnico da companhia, Leonardo Bonomi.
Para o diretor da Febraban, o maior problema é que não
existe uma lei que puna esses crimes. "Quando fazemos algumas
operações com a Polícia Federal e alguns bandos
são presos, as fraudes praticamente caem a zero. Mas a lei
é muito branda e esses bandidos são soltos e voltam
a cometer os mesmos golpes." Ele afirma que a federação
está trabalhando num projeto de lei, que há quatro
anos tramita no Congresso, para criar punições para
esses crimes. "As regras amenas incentivam as fraudes."
Para o diretor de tecnologia da Open Communications Security, Marcelo
Fiori, a tendência é que esses golpes ganhem ainda
mais sofisticação, já que as operações
bancárias pela internet devem continuar crescendo. Aliás,
essa é uma aposta das instituições financeiras.
Fiori alerta que o novo tipo de golpe agora está sendo feito
pelo Orkut - uma das redes de relacionamento mais acionadas no mundo,
especialmente no Brasil. A estratégia é enviar scraps
(mensagens) com desenhos e com links para o internauta abrir, como
ocorre nos e-mails. O maior problema, diz o diretor da Open, é
que nem todos os antivírus captam essas operações.
"É preciso programas especiais de segurança."
Fonte: jornal O Estado de S. Paulo - edição de 24/10/2005 - Renée
Pereira