Lojas
"viram" banco e aumentam os lucros
De
olho no lucro financeiro, grandes redes de lojas ampliaram a oferta
de serviços de bancos para os clientes. Hoje, os consumidores
já podem sacar até R$ 10 mil nos "caixas"
das Lojas Americanas, da C&A, da Riachuelo, do Ponto Frio e
do Magazine Luiza.
Em parceria com bancos ou financeiras, grandes redes passaram a
oferecer crédito pessoal para clientes e não-clientes.
Até recentemente, as lojas só financiavam -com ou
sem a participação de financeiras ou bancos- a compra
de mercadorias em suas lojas por meio de cartões, carnês
ou cheques pré-datados. Dar crédito para o consumidor
pode ser mais lucrativo do que a própria operação
de venda de bens, devido às altas taxas de juros (de 10%
a 12% ao mês para o crédito pessoal), segundo especialistas
ouvidos pela Folha.
Prova disso é que os serviços financeiros ofertados
pelas redes ganham cada vez mais participação no lucro
das empresas.
A Riachuelo informa que 40% do lucro da rede, da ordem de R$ 145
milhões no ano passado, veio da venda financiada, do empréstimo
pessoal e da venda de seguros. A estimativa é que esse percentual
suba para 50% neste ano. Em parceria com os bancos Safra e Alfa
e empresas de seguro, a rede, que faturou cerca de R$ 1,4 bilhão
em 2004, também comercializa seguros desemprego, residência,
assistência de veículos e de casas, perda e roubo de
cartão e assistência odontológica.
"Cerca de 100 mil pessoas já fizeram empréstimo
pessoal em nossas lojas, o que significa 1% de nossa clientela.
Estamos aprimorando a política de crédito para ampliar
esse percentual", diz Flávio Rocha, dono da Riachuelo.
O Ponto Frio informa que realizou 200 mil operações
de empréstimo pessoal por meio do Banco Investcred Unibanco
S.A., que pertence ao Unibanco e à Globex (controladora do
Ponto Frio).
"A oferta de serviços financeiros pelo varejo é
uma tendência inevitável no país", diz
Marcos Rocha, diretor-geral do Pontocred, nome fantasia do Investcred.
Analistas do mercado financeiro dizem que os bancos estão
cada vez mais interessados em parcerias com o varejo porque têm
interesse na carteira de clientes das lojas. As redes gostam da
idéia porque podem financiar os consumidores com recursos
dos bancos -sobra, portanto, mais dinheiro para tocar a operação
do dia-a-dia- e ainda dividir o lucro financeiro das operações.
"Os bancos entraram nas lojas primeiramente para financiar
a aquisição de bens. Agora, querem ter praticamente
agências dentro das lojas. Os lojistas já oferecem
mais serviços para os clientes e têm direito a parte
dos ganhos financeiros", afirma Daniel Araújo, analista
da agência de classificação de risco Standard
& Poor's.
Para Leonel Andrade, presidente da Losango (do grupo HSBC), a concorrência
não assusta. "Não há concorrência,
mas parceria estratégica. E as lojas próprias [das
financeiras] vão continuar existindo porque oferecem privacidade
e agilidade na hora de emprestar", diz. A Losango, maior financeira
do país, cobra juro de 9,8% ao mês no empréstimo
pessoal.
Bancos, financeiras e lojas afirmam que o consumidor também
ganha com as miniagências bancárias, principalmente
por conta da facilidade, pois sai da loja com o dinheiro na mão
a qualquer hora. Os bancos fecham mais cedo que as lojas, que também
abrem aos domingos. O cliente pode fazer um empréstimo às
20h nas Lojas Americanas, por exemplo.
Cuidados
"É mais cômodo ir às lojas, mas o consumidor
precisa tomar alguns cuidados. O crédito pessoal é
caro", diz Miguel Ribeiro de Oliveira, vice-presidente da Anefac,
associação que reúne os executivos de finanças
e contabilidade.
Além de caro, segundo informa, o empréstimo pessoal
tem preço variado no mercado. "Se precisar de dinheiro,
é bom o cliente pegar o crédito consignado [a taxa
média de juros é de 2,9% ao mês], que é
descontado na folha de pagamento. O penhor de jóias também
é uma boa opção -os juros são de 2,9%,
em média, ao mês. Se optar pelo empréstimo na
loja, compare o custo efetivo do crédito. Tradicionalmente,
o crédito do banco é mais barato do que o da financeira",
afirma Oliveira.
Wanderley Vettore, diretor do banco Cacique, que administra o financiamento
de 250 redes de lojas e em 70 lojas próprias, informa que
a disputa para financiar a compra do consumidor está cada
vez mais acirrada. "O que está acontecendo agora é
que as lojas também dividem o resultado do empréstimo
ao consumidor."
A partir do ano que vem, as Lojas Colombo também vão
conceder empréstimos pessoais, em parceria com o Bradesco.
A rede e o banco serão sócios em partes iguais e devem
oferecer o serviço em 365 lojas em cinco Estados
Fonte: jornal Folha de S. Paulo - edição de 10/10/2005 - Fátima
Fernandes e Claudia Rolli