Bancos
reajustaram seus preços
Os nove maiores bancos de varejo nacionais e estrangeiros promoveram
uma série de reajustes em suas tarifas entre março
e dezembro de 2004, embora tivessem mantido os preços na
maior parte de seus serviços. É o que se conclui de
uma pesquisa feita pelo Valor nos preços de 23 tipos de serviços
de conta corrente (cadastro para abertura da conta, renovação
de cadastro e manutenção de conta ativa), talão
de cheques (emissão com 20 folhas, Transferência Bancária,
avulso, administrativo, devolvido e sustado), serviços eletrônicos
(extrato via terminal, fax e outros meios e saque no Banco 24 horas),
transferência de fundos (DOC "C" e "D")
e outros serviços (manutenção de conta inativa,
inclusão e exclusão no Cadastro de Cheques sem Fundo,
CCF).
Para selecionar os serviços e conhecer a variação
de preços no ano, foi utilizada como referência a pesquisa
da Fundação Procon São Paulo, realizada em
março de 2004. Os dados atuais foram capturados em visitas
a algumas agências, pelo site do Banco Central (BC) e informações
fornecidas pelas próprias instituições. Com
base na pesquisa do Procon, foram selecionados os bancos HSBC, Banespa,
Bradesco, Banco do Brasil (BB), Caixa Econômica Federal (Caixa),
Itaú, Nossa Caixa, Real ABN AMRO e Unibanco.
Em apenas quatro deles - HSBC, Banespa, Banco do Brasil e Nossa
Caixa - o número de produtos com preços reajustados
não chegou a 30% da amostra. Os demais reajustaram para cima
de 30% a 55% dos itens pesquisados. A maior alta foi no preço
do extrato via fax ou outros meios do Banespa, que subiu 542,86%,
de R$ 0,70 para R$ 4,50. No entanto, esse foi o banco com menos
produtos reajustados, apenas dois de uma amostra de 19.
O banco com maior número de serviços reajustados foi
o Real, que de 18 itens analisados aumentou o preço de 10,
sendo a maior alta, de 100%, no valor da manutenção
anual de cartão magnético, que subiu de R$ 18 para
R$ 36. De todos os itens pesquisados, só houve queda de preço
dos serviços de exclusão do CCF (três bancos
diminuíram o preço: HSBC, Caixa Federal e Itaú),
manutenção de conta inativa (um só, o Unibanco)
e o cheque devolvido (na Caixa Federal). Questionados sobre o motivo
dos reajustes, os bancos justificaram que aqueles serviços
estavam há mais de um ano - alguns mais de dois anos - sem
correção. O Bradesco admitiu que corrigiu tarifas
para se ressarcir de gastos com atualização tecnológica.
Pesquisar as tarifas bancárias é uma tarefa extremamente
complicada, como atesta Vinicius Zwarg, diretor de serviços
financeiros da Fundação Procon São Paulo. A
entidade realiza apenas duas pesquisas sobre o tema por ano, colocando
uma equipe de pesquisadores para circular pelas agências dos
principais bancos. A equipe do Procon pesquisa uma lista de 42 itens
e confirma os preços em entrevistas com os gerentes, que
são solicitados a assinar em baixo das declarações
que deram - para evitar contestações posteriores à
divulgação da pesquisa. Ainda assim, com todo esse
cuidado, os bancos costumam apontar falhas nas informações
coletadas pelo Procon, o que mostra que os próprios gerentes
dão informações incorretas aos pesquisadores.
A razão das divergências é o cipoal de nomenclaturas
e formas de cobrança. Se o consumidor quiser se aventurar
na comparação, como fez a reportagem do Valor, vai
encontrar dificuldade logo de saída, nas agências.
Os bancos são obrigados, pela Resolução Banco
Central 2.303 de 25/7/96, a afixar a tabela de tarifas em local
visível dentro da agência. Uma visita da reportagem,
na terça-feira da semana passada, a algumas agências
na Av. Alfonso Bovero, uma das principais e mais movimentadas da
Zona Oeste da capital paulista, e ao Centro antigo da cidade, encontrou
o seguinte: na agência do Bradesco, a tabela de tarifas bancárias
estava afixada, mas era uma versão defasada - o preço
do DOC ainda constava como R$ 5,40 mas já foi reajustado
para R$ 12 no caixa e R$ 8,00 pela internet (reajuste de 48,2% no
caso da internet).
Na agência do BB, a tabela estava escondida atrás de
uma peça publicitária. Na agência da Caixa não
havia tabela na entrada. Questionada sobre a ausência da tabela,
uma funcionária do pré-atendimento subiu ao mezzanino
da agência, tirou uma cópia e entregou-a à reportagem,
explicando que a tabela nova havia chegado apenas no dia anterior
e não houve tempo de fixá-la.
Questionado sobre a deficiência dessa fonte de informação
nas agências, o BC respondeu, através de sua assessoria
de imprensa, que o descumprimento dessa norma pode ser punido com
processo administrativo mas que não há "penalidade
específica para cada normativo descumprido". O BC "recomenda"
que, caso se deparem com a falta da tabela ou com deficiência
na informação, os consumidores entrem em contato com
o próprio banco ou encaminhe reclamação para
a Central de Atendimento que pode, "se for o caso", acionar
a fiscalização. No entanto, segundo a assessoria,
a Central de Atendimento "não registra ocorrência"
de descumprimento dessa norma "como frequente".
Diante da dificuldade da pesquisa nas agências, a reportagem
buscou informações no site do BC na internet e junto
às próprias instituições financeiras
- algumas delas mandaram suas tabelas pela internet, outras informaram
por telefone. De acordo com a Resolução 2.303, o BC
também tem que divulgar a relação de serviços
tarifados mais usuais. Os preços estão lá mas
muitas das nomenclaturas e formas de cobrança são
diferentes das que constam nas tabelas dos bancos, o que dificulta
muito a comparação de grande parte dos serviços.
Por exemplo, quando se busca o preço da compensação
de cheques no Bradesco, consta no BC o valor de R$ 0,45 por cheque.
Mas o banco explica que esse valor só é cobrado se
a compensação de um cheque Bradesco for feita em outro
banco. Se for no próprio Bradesco, é gratuita. Outro
exemplo: o Unibanco cobra R$ 8,40 na emissão do talão
de cheques de 20 folhas e R$ 3,95 para emitir um cartão magnético.
Porém, se o cliente optar pelo pagamento do cartão
magnético, as 12 primeiras folhas de cheques por mês
sairão de graça. Se optar por pagar o cheque, a manutenção
do cartão sai de graça. Ou seja, fica a critério
do cliente decidir se quer o cartão ou o cheque. Essa explicação
não consta no site do BC, só da tabela do banco.
Nem todas as tarifas do site do BC batem com as que os bancos praticam.
No site do BC o preço da transferência por DOC "C"
e "D" do Banespa é o mesmo: R$ 10,40. No entanto,
o banco informa que houve um reajuste de 9,62%, para R$ 11,40 que
é o preço atual. O mesmo acontece com tarifa por cheque
devolvido cujo valor atual é R$ 13,30 mas no site do BC consta
R$ 12. Ao invés de uma queda de 5,51% em comparação
com março, o valor dessa tarifa subiu 4,72%.
Fonte: jornal Valor Econômico - edição de 01/10/2005 -
Janes Rocha