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Mastercard vai abrir capital para evitar novos processos legais

A MasterCard, a segunda maior empresa de cartões de crédito do mundo, vai se tornar uma companhia independente de capital aberto, numa tentativa de afastar os bancos que a controla das crescentes ameaças regulatórias e legais. A companhia, que é controlada por 1.400 instituições financeiras, disse ontem que vai abrir o capital em uma oferta inicial de ações que dará aos investidores de fora uma participação de 49% em seu capital total e de 83% no capital votante. Ela terá um novo conselho em que a maioria dos membros serão de diretores independentes.

Em um comunicado enviado à Securities and Exchange Commission (SEC), a MasterCard disse que a iniciativa lhe dará "uma base mais estável" para implementar sua estratégia, e que ela também vai resolver "conflitos de interesses percebidos". "Nós acreditamos que as autoridades reguladoras vão reconhecer essas mudanças e a maior abertura que elas darão à nossa governança e controle".

A MasterCard e a sua concorrente maior, a Visa, estão sob pressões crescentes das autoridades reguladoras e do comércio, por causa das tarifas de "intercâmbio" que os bancos-membros impõem aos comerciantes pelo processamento dos cartões de crédito. Em junho, MasterCard e Visa, juntamente com alguns de seus maiores bancos-membros, foram atingidas por uma ação coletiva movida por um grupo de comerciantes dos EUA que alegam que as tarifas cobradas são altas demais. Dois anos atrás elas firmaram acordo de US$ 3 bilhões em um processo movido por comerciantes americanos que argumentavam que elas estavam cobrando taxas muito altas para processarem cartões de débito.

Michael Lafferty, presidente do conselho da Lafferty Group, consultoria especializada em cartões, diz que a decisão da MasterCard visa proteger seus membros de novos processos antitruste em questões como conluio na cobrança de tarifas de intercâmbio. "Os bancos europeus em particular estão muito preocupados com sua exposição aos danos provocados por ações coletivas nos Estados Unidos."

Lafferty acrescenta que a Visa, que tem complexa estrutura meio mútua e meio corporativa, também está sendo pressionada a abrir o capital. Observadores do setor acreditam que como companhias independentes, a MasterCard e a Visa, enfrentariam menor pressões regulatórias e legais. A MasterCard disse que vai repassar parte dos recursos levantados com a abertura de capital para seus bancos-membros, mas que vai reter US$ 650 milhões para cobrir parte de potenciais custos legais. "Juntamente com as mudanças estruturais propostas, nós acreditamos que esses recursos nos colocarão em uma posição que permitirá uma melhor defesa de nossos interesses na arena legal e regulatória."

Fundada em 1966, a MasterCard abriu caminho para a mudança convertendo-se de uma associação por membros em uma empresas por ações de capital fechado em 2002, quando começou a prestar conta de sua contabilidade. No primeiro semestre deste ano, registrou crescimento de 54% no lucro líquido, para US$ 214 milhões, sobre receitas que cresceram 15% para US$ 1,43 bilhão.

Sob os termos da proposta, a MasterCard vai emitir ações ordinárias classe A para o público. Outros 10% do capital ficarão em poder de uma associação de caridade.


Fonte: jornal Valor Econômico - edição de 01/09/2005 - Financial Times