Amplia-se
o boicote a vale-refeição
O
boicote dos bares e restaurantes ao convênio-refeição
deve se intensificar nos próximos dias caso não ocorra
uma redução das taxas médias cobradas desses
estabelecimentos.
Segundo representantes do setor, que na semana passada organizaram
em Curitiba um dia de boicote a esse meio de pagamento, as taxas
cobradas por algumas administradoras variam entre 5% e 10% do valor
do voucher (vale, tíquete). Para outubro, já está
marcado um novo dia de boicote, só que dessa vez o protesto
deve ocorrer em várias cidades do País, ao mesmo tempo.
Conflitos entre varejistas e fornecedores de meios de pagamentos,
entretanto, não são novidade. Segmentos como dos supermercadistas
e o de postos de combustíveis já se mobilizaram contra
as taxas cobradas pelas empresas de cartões de crédito
e cartões de débito.
Oficialmente, as empresas de cartões não revelam as
taxas cobradas dos varejistas. No entanto, fontes extra-oficiais
informaram que elas variam entre 0,5% e 5%, dependendo principalmente
do volume de vendas.
No casos da refeição-convênio, a sistemática
é a mesma. Quanto menor o volume de vendas do estabelecimento,
maiores são as taxas.
Procurados pela reportagem do DCI, as empresas Vale Refeição
, Ticket , Sodexho e Visa Vale , além da Associação
das Empresas de Refeição e Alimentação
Convênio (Assert), não quiseram se pronunciar sobre
o boicote dos restaurantes.
Hoje, representantes dos bares e restaurantes têm audiência
marcada com o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, para discutir
a questão.
“Vamos propor a criação de uma lei que obrigue
os empregadores (que fornecem os vouchers) e os restaurantes a pagarem
uma taxa média idêntica. Dessa forma, o negócio
fica mais equilibrado, já que os empregadores têm mais
poder de barganha do que os bares e restaurantes”, explica
o presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes
(Abrasel), Paulo Solmucci Júnior.
Segundo ele, empresas pequenas de convênio-refeição
conseguem praticar taxas menores do que as grandes, “o que
é um contra-senso, já elas possuem muito menos escala.”
Além da conversa com o ministro do Trabalho, o setor de bares
e restaurantes pretende recorrer ao Conselho Administrativo de Defesa
Econômica (Cade) pois, segundo eles, as empresas de convênio-refeição
estão atuando de forma cartelizada.
O movimento encabeçado pela Abrasel pode ganhar novos adeptos
nos próximos dias. De acordo com o presidente da Associação
Brasileira de Gastronomia, Hospitalidade e Turismo (Abresi), Nelson
de Abreu Pinto, em cerca de dez dias a entidade vai emitir um comunicado
formal se posicionando sobre a questão. “As taxas cobradas
pelas administradoras de convênio-refeição estão
chegando às raias do absurdo”, diz.
Segundo o dirigente, a dependência desse meio de pagamento
em alguns casos supera os 50%. “Fica difícil para um
estabelecimento abrir mão desse instrumento. Precisamos chegar
a um consenso de uma taxa que seja viável para todas as partes
envolvidas.”
Migração para cartões
Em tese, com a migração dos vouchers em papel para
os cartões com chip, processo que vem sendo implantado por
todas as grandes empresas do setor, o custo das transações
recuaria, beneficiando inclusive os bares e restaurantes, mas não
é o que está ocorrendo, segundo representantes do
setor.
A entrada no mercado da Visa Vale, associação entre
os bancos Bradesco , Banco do Brasil e ABN Amro Real , em 2003,
também gerou uma perspectiva de redução nas
taxas da concorrência, mas isso também não ocorreu,
informa Solmucci Júnior, da Abrasel.
Em 2002, os supermercados, capitaneados pela Associação
Brasileira de Supermercados (Abras), ameaçaram boicotar as
administradoras de cartões de débito.
Grandes redes como Pão de Açúcar , Carrefour
, Wal-Mart e Sonae apoiaram a iniciativa. No entanto, ela ainda
não foi concretizada.
Os postos de combustíveis, por sua vez, chegaram a boicotar
algumas vezes os cartões, o que acabou forçando a
redução das taxas.
Outra estratégia do segmento foi criar um cartão próprio,
com taxas inferiores às praticadas pelas bandeiras tradicionais.
Fonte: jornal DCI - edição de 12/08/2005 - Luis Fernando Klava