Alongamento
do crédito ao consumo
Como
as perspectivas para o emprego têm melhorado e há ligeira
recuperação do salário real, os assalariados
aceitam o alongamento dos prazos do crediário para manter
sua capacidade de consumir bens duráveis, no momento em que
bancos, financeiras e lojas elevam os juros em função
do aumento da taxa Selic. Prazos mais extensos parecem ser também
a saída óbvia para que financiadores e lojistas preservem
o volume das vendas, que cresceu 15,38% entre março de 2004
e março de 2005, segundo os últimos dados do IBGE.
Mas isso tudo porque a economia se tornou mais previsível.
Em países onde os juros são baixos, o endividamento
de longo prazo para consumir é um procedimento natural e
de pouco risco. No Brasil, ao contrário, os prazos do crédito
costumam ser mais curtos, pois consumidores e financiadores são
mais cautelosos. A dilatação em até seis meses
dos prazos para a aquisição de móveis e eletrodomésticos,
e de até 12 meses para a aquisição de veículos,
como mostrou reportagem de Márcia de Chiara, publicada na
edição de ontem do Estado (B1), sinaliza maior dose
de confiança dos consumidores.
Isso já havia sido revelado, há alguns dias, em pesquisa
da Federação do Comércio do Estado de São
Paulo, mostrando que o índice de confiança aumentou
de 109,3 pontos, em abril de 2004, para 146,4 pontos, em janeiro
de 2005, declinando muito pouco, para 142 pontos, no mês passado.
(Esse índice assinala confiança quando supera 100
pontos e desconfiança quando fica abaixo de 100 pontos, como
ocorreu na crise asiática de 1998 e na crise de energia de
2001.)
O crediário das lojas e o crédito direto ao consumidor
e pessoal dos bancos e financeiras vêm alavancando as vendas.
Em 12 meses, até março, cresceram 33,1% os empréstimos
às pessoas físicas, mas manter esse ritmo se torna
mais difícil com a alta dos juros. Nos bancos, a taxa média
de juros para pessoas físicas aumentou de 62% ao ano, o índice
mais baixo de 2004, para 64% ao ano, em março, e, nos mesmos
meses, o spread (diferença entre o juro pago aos tomadores
e o cobrado dos devedores) só ficou estável em 45,3%
ao ano porque cresceram os empréstimos consignados e a aposentados,
cujas taxas são mais baixas. Nas financeiras, o custo tende
a ser bem maior, chegando a superar 15% ao mês nos empréstimos
pessoais.
Com o crédito mais caro, reduz-se o espaço do comércio
para reajustar preços, o que acaba sendo também um
fator de alimentação do consumo
Fonte: jornal O Estado de S. Paulo - edição de 24/05/2005