Cartão
remoto
O
futuro do mercado de cartões de crédito começou
a ser construído na semana passada. As duas maiores operadoras
do mundo, Visa e Mastercard, cerraram fileiras para desenvolver
uma tecnologia, batizada de EMV (Europay Mastercad Visa) que permitirá
mais rapidez nas bilhões de transações que
são feitas a cada dia pelos clientes em todo o planeta. As
empresas querem aposentar de vez os cartões com tarja magnética
e, quem sabe, mandar mais cedo para casa os plásticos com
chip embutido, hoje os mais modernos à disposição
dos consumidores. A idéia é criar um cartão
capaz de realizar pagamentos por rádio freqüência.
Na prática, as contas serão pagas sem a necessidade
de passar o cartão pela máquina. Será suficiente
segurá-lo a uma distância máxima de 10 centímetros
do equipamento. Mais do que a inovação tecnológica,
o acordo coloca Visa e Mastercard em pé de igualdade para
disputar nichos onde não atuam hoje, como o pagamento de
pequenas compras e até de tarifas de transporte. "Esse
movimento cria um novo paradigma para o mercado", afirma Cid
Antão, diretor da SmartNet, a companhia brasileira que migrou
o vale-refeição do papel para o cartão com
chip.
O investimento na nova empreitada não foi divulgado, mas
os números em torno das duas companhias da Visa e Mastercard
são suficientes para comprovar que ambas podem influenciar
profundamente o negócio dos cartões de crédito.
A Visa tem 1 bilhão de cartões em circulação
e faturou em 2004 cerca de US$ 3 trilhões. A Mastercard alcançou
US$ 1,5 trilhão de faturamento e fechou o ano passado com
680 milhões de cartões emitidos no mundo. O desenvolvimento
desse novo cartão deve consumir pelo menos três anos
de pesquisa -- tempo suficiente para as operadoras convencerem seus
clientes da necessidade de migração. Em mercados maduros
como Europa e Estados Unidos, as dificuldades serão menores
porque lá o cartão com chip já em uma realidade.
No Brasil, a estréia da nova tecnologia deve demorar ainda
mais. Desde 2001, os bancos e outros emissores da moeda de plástico
no país tentam trocar a base de 200 milhões de cartões
sem muito sucesso. "Toda a rede do país está
preparada para o chip. Trocá-la seria dispendioso e levaria
muito tempo", diz Marcelo Bellini, diretor de marketing e vendas
no Brasil da Daruma Orga. A companhia está trazendo para
o país um novo tipo de cartão para o setor bancário,
mas que ainda possui o chip embutido. "Sobre esse novo produto
por toque ainda estamos fazendo alguns testes na Europa, EUA e Ásia",
explica Bellini. O cartão de crédito surgiu em 1950
quando o Dinners Club e a American Express passaram a emitir o plástico
para seus consumidores. Nos primeiros meses de operação,
o Diners teve 200 clientes que tinham uma rede de 27 restaurantes,
em New York, para usar o benefício. A tarjeta magnética
apareceu pela primeira vez em 1970 e permanece até hoje com
poucas inovações.
Foi a Mastercard que iniciou os primeiros estudos sobre a tecnologia,
mas a Visa percebeu que as companhias deveriam trabalhar juntas
no projeto. Trabalhar em parceria, nesse caso, é mais barato
definir um padrão único de transações
do que seguir de maneira independente. As empresas sabem que a história
do capitalismo é cruel com quem aposta na solidão
tecnológico. O caso do padrão Betamax, que era de
melhor qualidade e foi imposto pelos seus criadores ao resto da
indústria de vídeo, que não prevaleceu ao VHS
que existe até hoje. A Visa e a Mastercard querem construir
o futuro do seu bilionário negócio sem esquecer as
lições do passado. 200 milhões é o número
de cartões de crédito e débito já emitidos
no Brasil
US$ 3 trilhões foi o faturamento mundial da Visa em 2004
680 milhões é a quantidade de cartões da Mastercad
no mundo
Fonte: revista Isto É Dinheiro - edição de 21/03/2005
- Manoel Fernandes